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Com que roupa eu vou?

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Com que roupa eu vou?

Você já pensou em quanto trabalho existiu e quantas pessoas se envolveram na produção de uma simples camiseta branca? A indústria da moda é de todas a mais dependente do trabalho manual. Simplesmente  tudo o que usamos foi, em algum momento, tocado por mãos humanas. Mas enquanto o setor comemora resultados de quase três trilhões de dólares ao ano (isso mesmo: trilhões!),  milhões e milhões de trabalhadores nos países mais miseráveis do planeta _ a maioria mulheres _ estão recebendo salários de US$ 2 por dia, trabalhando em condições inseguras e privados dos direitos humanos mais elementares. Foi em busca de uma alternativa a esta situação que surgiram mundo afora movimentos para criar cada vez mais consciência em relação ao consumo e seus impactos.

A venezuelana Carmen Busquets é uma das pioneiras dessa idéia. Empreendedora de sucesso, no início dos anos 2000 ela vendeu sua butique em Caracas para mergulhar no mundo virtual. Com as 250 mil libras que levantou lançou a loja on line Net-a-Porter.  Dez anos depois, vendeu o negócio por 350 milhões de libras para o Grupo Richmond. Em 2006, Carmen lançou a CoutureLab, segundo ela, um “laboratório de idéias” e uma marca dedicada a apoiar a produção de artesanatos com história e tradição. Basicamente, o site se propõe a vender produtos raros de todo o mundo, selecionados por Carmen, e em mais de 80% dos casos produzidos a mão. Hoje empresa tem clientes em 65 países e uma média de mais de 30 mil pedidos por mês. A consolidação dessa tendência, onde se investe mais na qualidade dos produtos e não apenas em quantidade de vendas, chamou a atenção das grandes marcas.  Casos como as bolsas incríveis da Bottega Veneta, ou os macramés e bordados manuais vendidos hoje pela Yves Saint Laurent.

Print screen do site Net-a-Porter

Mas foi preciso uma tragédia para abrir os olhos do mundo para os problemas do hiperconsumo e da hiperprodução na indústria da moda. Em 2013 um prédio condenado de oito andares na periferia de Bangladesh desabou, matando 1.127 pessoas, inclusive crianças que por falta de opção melhor acompanhavam suas mães no trabalho. No edifício, conhecido como Rana Plaza, funcionavam quatro fábricas que produziam peças para marcas como Benetton, Primark e H&M, entre outras. A indignação foi mundial. De lá para cá,  casos de exploração e desrespeito surgiram com mais frequência na imprensa, como por exemplo quando foram descobertos trabalhadores vivendo em um regime análogo à escravidão enquanto produziam calças jeans para a Zara em São Paulo.

Era preciso repensar o papel da moda, fazendo com que cada consumidor se torne mais consciente sobre aquilo que compra e quais os impactos sociais, ambientais e econômicos que estão por trás de cada peça.  No Brasil, por exemplo, criamos o Fashion for Better,  um movimento que nasceu com o propósito de garantir a procedência de mão de obra para consumidores que desejam, mais do que investir em produtos de boa qualidade, usar seu poder aquisitivo para se posicionar a favor da dignidade da vida. Não é certo ignorar a vida das pessoas, nem razoável que uma indústria que gere resultados tão expressivos seja incapaz de manter seus trabalhadores adequadamente. Existem inúmeras maneiras de melhor confeccionar e vender roupas gerando crescimento econômico.  E uma das maneiras mais eficazes é a partir das escolhas de consumo. Toda indústria gera impactos. Ao ter consciência desses impactos na hora de escolher o que comprar ou de quem comprar, o consumidor pode maximizar os impactos positivos e minimizar os negativos, desta forma contribuindo com seu poder de escolha para construir um mundo melhor. Juntos podemos mais.