por Dani Mollo

Valentino fashion detox = spikes + Greenpeace

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Valentino fashion detox = spikes + Greenpeace

A Maison Valentino foi fundada em 1960 por Valentino Clemente Ludovico Garavani e Giancarlo Giammetti. Valentino entrou no mundo da moda em 1950 ainda adolescente e se mudou para Paris onde estudou e em 1959 abriu seu primeiro estúdio na famosa Via Condotti em Roma, estrelando 3 anos mais tarde sua primeira coleção em Florença.

Valentino é protagonista da moda internacional e, de 2008 a 2016, passou por uma evolução criativa impactante. A Maison tem um papel importantíssimo no mercado de luxo e consegue combinar tradição com inovação, itens completamente fundamentais para a sobrevivência de uma marca de luxo em um mercado cada vez mais eclético, mutante e exigente também no quesito sustentabilidade.

Desde 2012 a Maison é controlada por um grupo de investidores privados do Qatar, o que alavancou o crescimento da marca, tornando-a hoje em dia, uma das líderes na moda internacional. No final de 2015, atingiu a meta de 1 bilhão de dólares em receita, e no ano seguinte Pierpaolo Piccioli é nomeado o único diretor criativo da Maison.

Lendo uma matéria de 2016 da Revista Exame, me deparei com uma ótima reportagem sobre um ranking, que o grupo ambientalista Greenpeace divulgou. Era um novo guia de classificação verde, que na época mostrou grandes diferenças entre as políticas das marcas de luxo sobre poluição de água e desmatamento.

A notícia não é recente, data de 2013, mas é excelente e merece ser relembrada. O grupo listou o desempenho de quinze grifes de alta costura que foram convidadas a responder um questionário com 25 tópicos, dentro das seguintes seções: a política de compra de couro, a origem da celulose das embalagens de papel e a qualidade da produção têxtil.

Dentro das perguntas, as grifes eram questionadas se o couro que utiliza é proveniente de criações de gado ligada ao desmatamento de florestas, se a origem da celulose ocasionou a derrubada ilegal de árvores e, por fim, a qualidade da produção têxtil. Nesse último item, avalia-se, por exemplo, o uso de produtos químicos perigosos que possam comprometer os recursos hídricos. Quem lidera o ranking “Fashion Duel”, apresentando um bom desempenho é a grife italiana Valentino. De acordo com o Greenpeace, a marca é transparente sobre seu compromisso com a implementação de políticas de desmatamento zero para o couro e embalagens e procura reduzir ao máximo o impacto ambiental da produção de tecidos.

Atuando em várias frentes, o Greenpeace fez uma investigação que detectou o quanto a indústria têxtil de alguns países, como a China e o México poluem a água, liberando no ambiente substâncias extremamente nocivas. Além disso constatou que muitas florestas tropicais irregulares estão sendo dizimadas virando embalagens e produtos de consumo, além de partes da nossa querida Amazônia que está sendo consumida por criações de gado que visam a produção de artefatos de couro.

Essa campanha DETOX do Greenpeace iniciada em 2011 avaliava o quão comprometida a marca de luxo estava em assumir o compromisso de criar moda livre de produtos químicos perigosos além de não destruir as florestas.
E em uma notícia mais recente, de 2016, em comunicado a imprensa em uma conferência em Milão, dezenas de empresas têxteis da região de Prato na Toscana, anunciaram o compromisso DETOX que é considerado um dos mais altos padrões na produção de moda livre de resíduos tóxicos. Essa região da Itália é responsável por exportar mais de 2,5 bilhões de dólares em roupas incluindo a Maison Valentino.

Para que haja adequada supervisão e para que os padrões de eliminação química sejam adotados a risca, a Confindustria Toscana Nord que representa o maior distrito têxtil de toda a Europa ficou responsável por essa nobre e trabalhosa tarefa. Essa ação é de extrema importância visto que, nunca antes foi implementado um acordo coletivo desse nível, desse porte. E para se ter uma ideia de quanto esse acordo é importante, ele abrange 13 mil toneladas de matéria prima e 13 milhões de metros de tecido por ano !!!!

Tamanho envolvimento e adesão deu ânimo ao Greenpeace, e seu diretor executivo na Itália, Giuseppe Onufrio afirmou na época: “Eles escolheram o padrão “ouro” de gerenciamento de produtos químicos, pelo qual todas as outras marcas de moda e iniciativas químicas perigosas serão medidas. Agora que seus próprios fornecedores estão se comprometendo a eliminar produtos químicos perigosos, marcas como Gucci, Prada e Armani não têm nenhuma desculpa senão seguir o exemplo “.

É reconfortante saber disso!!! É o início da cadeia…os maiores fornecedores de matéria prima para as grandes marcas de luxo italianas e francesas estão comprometidos a seguir normas e regras rígidas sinalizadas pelo Greenpeace em busca de detox em sua produção. FANTÁSTICO!!!

De acordo com o acompanhamento do Greenpeace, as empresas envolvidas no acordo já excluíram a utilização de inúmeros poluentes, dentre eles aminas associadas a corantes, que comprovadamente causam câncer. Alguns compostos químicos, de acordo com as exigências do acordo, devem ser completamente eliminadas da produção até o ano de 2020!!! E que assim seja!!!

Andrea Cavicchi, presidente da Confindustria Toscana Nord responsável pela supervisão dessas empresas afirma: “Nos próximos meses, continuaremos a desintoxicar nossa fabricação e ainda fornecer matéria prima verde, que orgulhosamente será usada por marcas globais com o mais alto padrão na indústria têxtil”.

Toda liberação de produtos químicos que essas empresas ainda não conseguiram eliminar devem divulgar online!!! São feitas auditorias e estudos de caso proporcionando enorme transparência em todo o processo. Que evolução !!!!

Temos também o exemplo da marca australiana de streetwear chamada Patagonia que faz questão de informar ao seu consumidor final todo o ciclo de produção de uma peça.

No Brasil, um bom exemplo disso é a marca de tênis Vert Shoes que utiliza no solado a borracha produzida na Amazônia, enquanto o algodão vem de alguns projetos sociais do Ceará, Pernambuco e Paraíba. E sendo completamente transparente, a marca informa também que alguns desafios ainda tenta superar em busca de estar cada vez mais sustentável.

E assim como Andrea Cavicchi disse sobre a Itália, o Brasil também pode ser um fornecedor de matéria prima “verde”, de muita qualidade, para o mundo e para as principais marcas de luxo.

Achei incrível a analogia que o Greenpeace fez do clássico “A Nova Roupa do Imperador”, de Christian Anderson onde o rei é enganado acreditando vestir roupas especiais sendo que, na verdade, está nú. Segue abaixo:

“Era uma vez um reino não tão distante onde vivia um pequeno rei. Sua mãe queria só o melhor para seu querido filho e comprou para ele as roupas mais luxuosas do reino. No entanto, ele se recusava a vesti-las porque conseguia ver algo que sua mãe não conseguia. Ele percebia que as roupas estavam contaminadas com substâncias químicas perigosas. Recusando-se a vestir qualquer roupa, ele então proclamou que nenhum produto tóxico nas roupas seria permitido em seu reino e em todo o mundo, desafiando os alfaiates a produzir roupas livres de tóxicos para ele e para todas as crianças”.

Essa releitura traz uma importante mensagem: o poder que o consumidor parece ainda não ter percebido que tem, de exigir das marcas a transparência e a verdade fornecendo as origens de suas matérias primas e tudo o que envolve as etapas de produção do seu produto.

A Maison Valentino, estando no topo, em primeiro lugar no ranking desenvolvido pelo Greenpeace está, há anos já preocupada com o futuro do meio ambiente e fiel a seu maior patrimônio que são seus consumidores.

Os compromissos da região de Prato na Itália, foram vitais para essa tendência mundial e é exemplo a ser seguido à crescente lista de empresas que optam por desentoxicar sua moda até 2020, incluindo agora 35 marcas internacionais de moda, têxteis e varejistas, representando mais de 15% da produção têxtil global em termos de vendas. Entre as empresas que se juntam estão algumas das principais marcas de moda internacionais, como Valentino, Adidas, e Burberry.

O Greenpeace pede aos adeptos e consumidores que desafiem as marcas de moda de luxo para eliminar produtos químicos perigosos e evitar a destruição da floresta em suas cadeias de suprimentos de matéria prima e produtos.

São ações conjuntas, de pessoas verdadeiramente preocupadas em impactar o menos possível o meio ambiente que, dia após dia irão construir uma base sólida para um futuro cada vez mais sustentável. Que tenhamos a consciência de que o nosso poder como consumidor de moda é determinante para que as empresas repensem seus processos e se adequem aos novos tempos, senão correm o risco de perderem espaço no mercado para as marcas, como a Maison Valentino que, em atitude corajosa, abraçou um projeto elaborado e exigente do Greenpeace liderando o ranking pelo comprometimento com a causa.

Fontes:

www.greenpeace.org
www.wikipedia.org
www.fiesp.com.br
www.exame.abril.com.br
www.valentino.com
www.instagram.com/maisonvalentino/