Consumo Consciente, por Dani Mollo

In Vogue : #fashionwithpurpose

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In Vogue : #fashionwithpurpose

Exultante e suspirando aliviada recebi essa notícia no final de 2017, para fechar um ano de evolução e novidades ótimas vindas, tanto da indústria da moda como das marcas de luxo consagradas.

São marcas que fizeram sua fama e fortuna vendendo sonhos de consumo elaborados com couro, pele animal e tecidos nobres porém nocivos ao ambiente. Mas tudo isso em uma época onde a preocupação com os resíduos e impacto ambiental deixados pela fabricação desses artigos era muito pouco ou quase nada conhecidos.

Hoje em dia, com estudos científicos, muita pesquisa, conscientização e engajamento da população, uma marca que fique alheia a esse cenário, com certeza será impactada negativamente, seja em vendas, seja na sua imagem, o que hoje custa caro demais.

Pois bem…mas como abandonar sua fonte de maior lucro e as mais belas peças de vestuário que utilizam matéria prima animal ou qualquer outro tipo de tecido que prejudique o ambiente?

Graças ao bom Deus e a pessoas especiais, temos pesquisas sérias e constantes que buscam reciclar, substituir e reaproveitar. Sempre pensando que o “jogar fora”, é jogar fora de onde? Da sua casa? Do seu prédio? Da sua cidade? Mas fora da Terra não existe ainda, então nossos resíduos orgânicos ou não ficam por aqui, permanecem no planeta. Alguns consumindo centenas de anos para se degradar.

Para a minha surpresa e acredito que será para muitos leitores, os resíduos de maçã estão se tornando uma alternativa ao couro. Pasmem !!!!

Conseguem imaginar o que isso significa? Seja na indústria da moda, nas passarelas, nas lojas, em nossas casas, e por último mas não menos importante, no planeta Terra?

Mas vejo necessidade de antes expôr algumas considerações muito pertinentes antes de explicar sobre o uso da maçã.

Para começar, quanto ao couro, temos o seguinte: A Lei 4.888, que é vigente no Brasil desde 1965, proíbe a utilização do termo couro em produtos que não tenham sido obtidos exclusivamente de pele animal, assim como também pune quem usa a expressão.
A infração à Lei do Couro constitui crime de concorrência desleal previsto no artigo 195 do Código Penal, cuja pena é a detenção de três meses até um ano, ou multa.
O texto da lei é claro: Art. 1º: Fica proibido pôr à venda ou vender, sob o nome de couro, produtos que não sejam obtidos exclusivamente de pele animal.
A lei de mais de 50 anos “não deixa” utilizar o termo couro ecológico ou couro vegetal, couro verde, decretando que couro é couro e ponto.
Mas terminologias a parte, o que nos interessa é saber e constatar que independente da nomenclatura, o tecido é menos ou nada nocivo ao ambiente.
Em tempos de crescimento da conscientização, e com estudos ainda em andamento e desenvolvimento, sou da opinião de que, se não podemos extirpar o uso de certas matérias primas, pelo menos já é válido diminuir o impacto causado por seu descarte na natureza.
Então quando falamos de “couro” ecológico, muitas vezes não sabemos que em geral, o couro ecológico é feito da pele de animais, especialmente bovinos, como o couro convencional. A diferença está no processo de curtimento: em vez de usar metais pesados, em especial o cromo, o couro ecológico usa substâncias alternativas, como os taninos vegetais. Um tempo atrás, o curtume era visto como uma indústria muito poluente, e todo curtume gera efluentes (resíduos industriais poluentes). Na Europa, para ter o selo ecológico, o fabricante tem que provar que existe um tratamento de efluentes bem feito, ter embalagem de papel reciclado dentre outras coisas.
Resumindo, o chamado “couro” ecológico não é totalmente sustentável, mas comparando com o couro acaba sendo uma alternativa menos nociva, são menos poluentes, usam substâncias naturais ou biodegradáveis, têm menos restrição de mercado e usam menos água”, diz Gerusa Giacomolli, 32, técnica responsável pelo Centro Tecnológico do Couro do Senai.

Mais e mais marcas de luxo estão optando por ficar livre de peles, devido à pressão de ativistas animais, bem como inovações têxteis que permitem a criação de tecidos luxuosos de couro fake. Em outubro do ano passado, a Gucci também anunciou sua união da Aliança Free Fur. Tanto a marca italiana como Michael Kors juntam-se a uma lista crescente de designers que proibiram o uso de peles de animais, incluindo Stella McCartney, Ralph Lauren, Calvin Klein, Armani, Tommy Hilfiger e a varejista online Net-A-Porter.

Michael Kors é o mais recente a se juntar a essa crescente lista de marcas de luxo optando por ficar livre de peles, anunciando no final de 2017 que não usará peles de animais em nenhum dos seus produtos.

De acordo com a Business of Fashion, a política de peles da Kors entrará em vigor nesse ano, com a produção totalmente eliminada em dezembro desse ano. A política será em toda a empresa, o que significa que também incluirá Jimmy Choo – que a Kors adquiriu em julho de 2017 por US $ 1,2 bilhão.

A Jimmy Choo, uma das minhas marcas preferidas de sapatos, que foi lindamente mostrada e enaltecida na série Sex and The City, possuidora de lojas espalhadas por todo o mundo em shoppings e avenidas requintadas, ao entrar também nessa “onda verde”, engrossa com classe a força do cada vez maior grupo de marcas de luxo que aderem a sustentabilidade na moda e alta costura.

Fico feliz e animada com a adesão de marcas de luxo de peso, porém ainda é um longo caminho a se percorrer. Enquanto as principais marcas de luxo se comprometeram a se livrar das peles, ainda há um grande número de marcas que abraçam completamente a pele real. O porta-voz do Fur Information Council of America, Keith Kaplan, revelou que “quase 70 por cento dos principais designers incluíram peles em suas coleções Outono/Inverno de 2017”.

Assim, várias marcas de moda estão ficando mais conscientes do verdadeiro custos moral e ambiental por trás da fabricação das peles de animais, e isso está ajudando a expandir o mercado para peles e couros sintéticos, valorizando mais a ética do que a economia e estimulando cada vez mais as pesquisas que buscam um substituto ao couro e a pele animais.

E para ajudar tremendamente toda a indústria a encontrar esse substituto, na Itália e mais precisamente nas cidades de Bolzano e Varese, um estudo conseguiu desenvolver um “couro” de maçã que é um material sustentável, subproduto da fabricação de suco de maçã chamado Pellemela, criado pelo engenheiro italiano Alberto Volcan.
Reduzir, Reutilizar e Reciclar, esses conceitos foram levados a sério por ele que utilizou os resíduos orgânicos de maçã como matéria-prima para novos produtos sustentáveis como papel e “couro” ecológico em 2004, criando um processo industrial para transformar resíduos de maça em papel e “couro” ecológico. O Cartamela e Pellemela são dois produtos completamente sustentáveis e um perfeito exemplo de reutilização de resíduos agroindustriais. Alberto Volcan é um engenheiro do Sul na Itália que criou em parceria com o Fundo Social Europeu da Província de Bolzano, o laboratório de análise química Frumat e Merloni Progetti Spa, um processo industrial para converter um produto considerado lixo em matéria-prima inovadora e especial. Que demais !!!!!!!
A partir de maçãs é possível obter não só cidra, sucos ou geleia, mas também as cascas e os núcleos se transformam em “couro” ecológico. Graças ao seu conhecimento técnico no campo da gestão de resíduos, Alberto patenteou um processo de secagem de resíduos de maçã que é desidratado, arrefecido e depois moído para obtenção da farinha branca de maçã.
A farinha branca de maçã contém 70% de celulose ao qual você pode criar até 75% de uma folha de papel, os restantes 25% é utilizado papel reciclado. O produto foi apelidado de Cartamela e como ele, pode-se fazer papel toalha, papel higiênico, lenços, cadernos, sacolas biodegradáveis e caixas de embalagem.
Este processo envolve a extração de fibras a partir das cascas de maçã secas para criar um laminado biodegradável que reduz o desperdício alimentar. O resultado é um material que se parece com couro real, ainda é respirável, durável, livre de produtos químicos e também resistente aos raios UV.
Já o Pellemela (em que 30% do material é obtido pela transformação dos resíduos de maçã) é um produto inovador e ambientalmente amigável : ele pode ser usado para produzir capas de agendas, moda, bolsas, calçados e revestimentos para sofás e poltronas. O “couro” vegetal obtido a partir dos resíduos de maçãs é muito versátil, resistente, confortável, à prova de água e se conforma em poucos minutos, mantendo a temperatura do corpo.
As vantagens desse “couro” de maçã é a recuperação dos resíduos numa lógica de economia circular, a produção de um material biodegradável que atende à moda vegana. Em comparação com as peles de animais, o material não é afetado pela presença de substâncias tóxicas utilizadas em curtimento. Graças à investigação conduzida ao longo dos anos , hoje diferentes empresas trabalham com este tipo de resíduo alimentar, transformando uma média de 30 toneladas por mês nesses produtos.

Fabricado na Itália com uma tecnologia patenteada e criada por um engenheiro italiano porém utilizando como base a maçã, o que coloca o Brasil, que produz quase 1 milhão de toneladas da fruta por ano, novamente com uma enorme possibilidade de que, aprendendo a técnica possa produzir o “couro” de maçã por aqui.

A marca Veerah investiu na produção de sapatos feitos com um laminado de cascas de maçã que substitui o “couro” animal e sintético e sua nova linha de sapatos de luxo foi produzida com um material sustentável, que é um subproduto da fabricação de suco de maçã chamado Pellemela. Este processo envolve a extração de fibras a partir das cascas de maçã secas para criar um laminado biodegradável que reduz o desperdício alimentar. O resultado é um material que se parece com couro real, ainda é respirável, durável, livre de produtos químicos e também resistente aos raios UV.

Como uma alternativa ao uso de peles de animais em seus produtos, muitas marcas veganas estão agora se voltando para novos materiais feitos de resíduos de frutas e legumes, como abacaxi, uvas, cogumelos e bananas para a confecção de artigos de moda. As startups Orange Fiber, Piñatex , Vegea e MycoWorks são alguns exemplos de sucesso.

Além da marca de sapatos Veerah, Tanja Schenker, fundadora da marca Happy Genie também utiliza o material Pellemela feito de resíduos de maçã em suas exclusivas bolsas de luxo feitas à mão na Itália.

Estamos caminhando, a adesão de marcas de luxo e do consumidor é fundamental!!!

“Devido aos avanços tecnológicos em fabricação, agora temos a capacidade de criar uma estética de luxo usando peles não animais. Vamos mostrar essas novas técnicas em nosso próximo desfile em fevereiro”, disse Michael Kors em um comunicado.

Estaremos de olho !!!

Fontes:

www.sebrae.com.br
www.stylourbano.com.br
www.atec.com.br
www.harpersbazaar.com
www.instagram.com/veerahofficial
ww.instagram.com/happygeniebags