Consumo consciente & Slow fashion, por Bel Dut

Must Have. Será?

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Must Have. Será?

Basta folhear algumas revistas de moda ou rodar a sua timeline das redes sociais que certamente você vai esbarrar nessa expressão. Só no Instagram, o termo em inglês que significa “tem que ter” em tradução livre já foi citado mais de 11 milhões de vezes. Pode parecer bobagem, mas pesquisas revelam que 77% dos consumidores tomam suas decisões de compra influenciados pelas suas redes sociais. Celebridades, blogueiras e influenciadores digitais ditam a moda e elegem sem cerimonia quais são as peças indispensáveis da estação. E nós, que não queremos passar recibo de desantenados, vamos lá e compramos mais aquela blusinha.

E o impacto deste comportamento é alarmante. A moda é a segunda indústria que mais gasta água e emite CO2. Produzimos, só no Brasil, 5,4 bilhões de peças em 2016. É o segundo mercado que mais emprega e, apesar da importância para a economia nacional, não é incomum encontrar trabalhadores, na sua maioria mulheres, sendo explorados. Segundo o Ministério Público do trabalho (MPT), dos 14 termos de ajustamento de conduta realizados em 2015, em São Paulo, por condições análogas à escravidão, dez eram referentes a empresas do setor têxtil.

Mas por que, na moda, consumimos sem pensar nas consequências? Sem querer culpar única e exclusivamente a publicidade, ela é certamente um fator que influencia. Os anúncios são sedutores e nos fazem acreditar que a felicidade está nas coisas. Se eu tiver aquela bolsa serei bem sucedida ou se usar aquele vestido vou ser desejada, e por aí vai. Com o crescimento do uso das redes sociais este cenário só piorou. As marcas já entenderam o quão promissor é atrelar seus produtos ao lifestyle das blogueiras e aí faz tudo parecer apenas uma “dica amiga”; e você, que não tem aquele estilo de vida, mas gostaria de ter, se contenta em comprar o sapato que elas usam.

Outra mudança na forma como consumimos é a onda do see now, buy now. Uma tendência que começou ano passado no desfile da marca Burberry, na London Fashion Week, e que agora ganhou mais adeptos. Antes, era preciso esperar em média seis meses entre ver uma peça nos desfiles e conseguir comprá-la. Hoje, o tempo entre as passarelas e as lojas pode ser de uma semana apenas. E as plataformas de vendas que disponibilizam os looks usados pelas blogueiras são outro convite ao consumo, fazendo a compra por impulso ficar a um clique.

Às vezes não enxergamos essas armadilhas. Por isso é preciso dar um passo atrás, olhar para dentro, nos conhecer, entender as nossas reais necessidades, questionar o que compramos e, principalmente, de quem. É libertador voltar a ter esse controle sobre o que consumimos. E da próxima vez que alguém disser: você “tem que ter” esta bolsa!!, você pode responder: não obrigada.

Fontes: alguns dados são de uma reportagem da Revista Galileu e outros do filme True Cost
E também na pesquisa sobre varejo realizada pela PricewaterhouseCoopers (PwC) Brasil