Slow Fashion & Beauty

Stella McCartney “A nova ideia de luxo é saber de onde sua moda vem”. Texto por Dani Mollo

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Stella McCartney “A nova ideia de luxo é saber de onde sua moda vem”.         Texto por Dani Mollo

Nos anos 70 na Inglaterra, nasceu Stella Nina MacCartney, filha do famoso beatle Paul McCartney e de Linda Eastman, formada em Artes e fotógrafa. Em uma época onde ser ambientalista era uma aberração, Linda se manifestava frequentemente contra o abuso aos animais trabalhando em organizações como a Friends of the Earth, Lynx e Peta. Fez seu próprio dinheiro ao comercializar pratos vegetarianos e publicou um livro de receitas famoso nos anos 90.

Stella foi criada em uma fazenda na Escócia, com os irmãos Mary, James e Heather onde comiam vegetais que eles mesmos plantavam e meio ambiente era assunto sempre presente na mesa de jantar.

Aos 15 anos, em 1987, começou a trabalhar com o estilista Christian Lacroix que abria sua Maison e lançava sua primeira coleção de alta costura.

Estudou moda no Central St Martins College of Art & Design na capital inglesa e, ao formar-se, em 1995, em seu desfile de formatura, estavam na primeira fila da platéia seu pai Paul McCartney e Linda Eastman, e na passarela as modelos mais em evidência na época: Naomi Campbell e Kate Moss. O desfile foi notícia mundial, porém haviam pessoas que questionavam se ela realmente era talentosa ou só estava tendo evidência devido aos pais famosos mas provando seu talento, nesse mesmo ano lançou sua própria marca e apenas dois anos depois ocupou o lugar de Karl Lagerfeld na Chloé e mais tarde a Gucci ofereceu lançar a grife Stella McCarney.

Stella sempre teve muita preocupação com a sustentabilidade e com os direitos dos animais, assim como sua mãe Linda teve em sua época, e essa preocupação Stella incorporou na mentalidade de sua marca com muita antecedência se comparado ao recente despertar da indústria da moda para isso.

Assim, ela NUNCA usou couro, pele, pelo ou penas naturais em NENHUMA de suas coleções, um posicionamento difícil em uma indústria que lucra tanto com a venda de acessórios de couro. Pra ela sempre importou mais preservar a sustentabilidade em suas coleções a ganhar rios de dinheiro vendendo algo de origem animal ou duvidosa.

Em sua segunda coleção, usou algodão orgânico e depois sedas, lãs e polyester, reciclados. O polyster é um dos grandes vilões dessa indústria, está presente na maioria das camisetas e leva longos 200 anos para se desintegrar.
Hoje, ao menos metade das peças das coleções de Stella é feita com materiais sustentáveis, o que a coloca muito a frente de qualquer outra marca do seu nicho, considerado de luxo.
Stella está, desde sempre, em busca de alternativas para substituir os tecidos de origem animal ou que provoquem dano ao ambiente em sua fabricação ou descarte, e vem colaborando a Bolt Threads que é criadora do Microsilk, material biológico que imita a seda real feita por aranhas, uma das mais fortes fibras naturais. Essa empresa tem uma linda missão: “Somos uma equipe de engenheiros, cientistas e especialistas em vestuário entusiasmados por desenvolver a próxima geração de tecidos de performance que transformarão o que usamos e a forma como vivemos.”

Além da Bolt Threads é nítido que esse tipo de empresa/organização está crescendo em todo o mundo buscando sempre alternativas de tecidos para a indústria da moda.

Aqui no Brasil, temos a EcoSimple que, desde 2010, oferece uma diversidade de tecidos feitos a partir da reciclagem de garrafas pets e sobras da indústria têxtil. Os tecidos da EcoSimple atendem os segmentos de decoração, moda e produção de acessórios. E vejam só, uma das bolsas mais vendidas da coleção de Stella chamada Falabella, tem couro vegetariano, nylon e garrafas recicladas. Em parceria com a Sea Sheperd Conservation Society, através do projeto Ocean Legend desenvolve bolsas usando garrafas de plástico encontradas nos oceanos que prejudicam a vida de animais selvagens marinhos.

Em um vídeo, Stella mostrou seu inverno 2017, em imagens feitas em um aterro sanitário na Escócia, querendo chamar a atenção para os problemas que envolvem o tratamento de resíduos para reciclagem, assim como suas parcerias com organizações do ramo visam alertar o mundo.

Algo inspirador aconteceu quando Stella fez uma linha para a rede fast fashion H&M juntamente com a organização Ginetex que é a associação internacional para rotulagem de cuidados têxteis, ou seja, são aqueles símbolos que encontramos nas etiquetas das roupas e que não damos a importância devida. Eles criaram um sistema de educação do consumidor, então além do próprio cuidado com o tecido, essa ação visou mostrar que o impacto ambiental diminui quando uma peça é bem cuidada e que lavar menos, por exemplo, é uma atitude simples e efetiva que faz a diferença.

Um tecido que Stella não simpatiza é a viscose e curiosamente é um dos materiais mais utilizados na moda. O problema é por ele ser derivado de árvores e prejudicial ao meio ambiente. Então firmou um compromisso passando três anos desenvolvendo e fornecendo viscose sustentável, assumindo o custo de desenvolvimento, o tempo e o esforço como empresa.

Imaginem a dificuldade de tentar substituir e/ou parar de usar um dos tecidos mais utilizados em toda a indústria da moda? Mas isso não é impossível, apenas não é viável de ser feito da noite para o dia. Porém com a conscientização cada vez maior da indústria e do consumidor teremos alternativas excelentes e em breve.

No Brasil, por exemplo, o bambu tem sido usado como um material alternativo para os tecidos já conhecidos como vilões. A descoberta da fibra do bambu é uma grande contribuição para proteger, os cada vez mais escassos, recursos naturais e minerais pois essa fibra é 100% celulósica e pode ser totalmente degradada no solo por microorganismos e luz solar, sem causar dano algum ao meio ambiente.

Embora no Brasil, a produção da celulose de bambu seja, ainda, relativamente pequena, as fábricas são grandes se comparadas a outros países, então, havendo procura por essa tecnologia e material faz do Brasil um possível fornecedor de peso.

Pois bem, os desafios desses novos materiais são e serão a produção em larga escala e durabilidade, se pode ser manipulado, lavado, tingido, etc. Mas tudo isso será respondido através de estudos e pesquisas cada vez mais numerosos sobre esse tema.

E falando no Brasil e de suas qualidades, a maravilhosa modelo Gisele Bündchen usou recentemente, um vestido de Stella MacCartney para receber o prêmio Eco Laureate por suas campanhas de sustentabilidade ambiental. A cerimônia que aconteceu em Milão homenageou artistas que são influências relevantes no quesito sustentabilidade.
Vale a pena conferir a legenda do post de Gisele:

“Obrigada @stellamccartney pelo meu vestido lindo e sustentável, feito a partir de viscose de origem sustentável de florestas certificadas da Suécia. Obrigada Lívia por tudo que você faz para fazer fashion ser sustentável.”

Lívia Firth, a quem Gisele se refere no post faz parte da empresa Eco-Age especializada em ajudar empresas, criando e implementando soluções de sustentabilidade.

Stella está em total sintonia com as reais necessidades dos novos tempos e não precisa fazer nenhuma adaptação de sustentabilidade como todas as outras marcas têm tido que começar a fazer. Ela está em plena vantagem já que começou sua carreira, a mais de 1 década, completamente comprometida com a sustentabilidade, fazendo parcerias com organizações, pesquisando novos materiais e suas possíveis utilizações no mundo da moda muito antes de todas as grandes e conhecidas marcas de luxo.

Mas nenhuma mudança é completa sem a compreensão e o “vestir a camisa” por parte do consumidor. E em suas próprias palavras Stella resume: “Eles (os consumidores) precisam trazer a mesma mentalidade holística para a moda que trouxeram para a alimentação e a saúde. Tem que pressionar os produtores para saber a origem dos materiais e pressionar as marcas por mudanças. Minha intenção é criar transformação verdadeira nessa indústria, que desesperadamente precisa”.
Porém ao mesmo tempo em que Stella tem orgulho de ter a única marca de moda trabalhando dessa maneira, também se sente frustrada pois é uma mentalidade que, para ela, já deveria estar mais adiantada, muito mais divulgada, entendida e adotada em maior escala.

Mas acredito que a velocidade de propagação dessa mentalidade, já vem sendo, a cada dia mais acelerada. A visão fantástica de Stella sugerindo que, assim como cuidamos da alimentação e da saúde passemos a enxergar com os mesmos olhos as roupas, o consumo e a moda é brilhante e pode ajudar o consumidor a rever o modo que enxerga suas roupas.

Obrigada Stella McCartney e a todos os citados nesse texto por trabalharem com afinco e aceitando todos os desafios pela causa da sustentabilidade.

Referências:

www.wikipedia.com
www.uniedu.sed.sc.gov.br
www.revistaofficiel
www.senacmoda.info
www.portaisdamoda.com.br
www.ffw.uol.com.br
www.boltthreads.com