Arts & Crafts, Consumo consciente & Slow fashion, por Dani Mollo

Upcycling e recycling já são uma realidade no carnaval brasileiro ?!

/
Upcycling e recycling já são uma realidade no carnaval brasileiro ?!

Viktor & Rolf é uma casa de moda de alta costura, especializada em criar projetos de vanguarda . Foi fundada em 1993 pelos designers holandeses Viktor Horsting e Rolf Snoeren.

Kadu Dias, publicitário descoladíssimo descreve lindamente o conceito da marca dizendo que ela é uma grife de moda que estabelece suas próprias regras e cria sua própria realidade, sem ligar para as tendências e os críticos, e cujas criações beiram o exótico-chique com peças impactantes e conceituais. É uma das marcas queridinhas dos fashionistas e atualmente referência de estilo.

Nascidos no mesmo ano, 1969, se conheceram na faculdade de arte e moda de Arnhem, localizada a 80 kms de Amsterdã, e estão juntos até os dias de hoje.

Depois de formados foram para Paris, onde apresentaram a primeira coleção com destaque no Festival de Jovens Talentos de Moda e Fotografia de Hyères em 1993. Ganhadora de três prêmios em sua estréia, a grife já nasceu mostrando uma moda de vanguarda onde proporções distorcidas, formas esculturais e um pouco de surrealismo estavam a ainda estão super presentes.

Recentemente, a dupla chamou ainda mais atenção ao empregarem a reciclagem e o upcycling na confecção de várias peças e modelos de roupas.
A dupla de estilistas tem levado a moda sustentável a um outro nível com a sua proposta para a alta costura, esse ímpeto da dupla é mais um incentivo para as grifes de alto luxo, pois mostrou na passarela o resultado incrível de suas coleções que trazem materiais de coleções passadas, provando que podemos reaproveitar materiais e roupas sem tirar o glamour e o luxo, muito pelo contrário até pois os resultados obtidos pela dupla são magníficos.
O upcycling foi empregado da seguinte forma: todos os retalhos de tecidos que estavam guardados em seus arquivos foram reutilizados em uma coleção que teve um resultado encantador. Eles também rasgaram os vestidos de suas temporadas anteriores e os reinterpretaram em novas peças, fazendo uma forte declaração sobre sustentabilidade na moda. Em uma coleção mais recente, eles continuaram a cortar roupas e saíram criações de vestidos de noite.

Os vestidos utilizados nessas criações, foram comprados em brechós e alguns, datados de 1940 !!!! Eles serviram de material de base para a coleção e foram unidos e fundidos com outros vestidos e transformados em colagens de alta costura, onde os fragmentos de cada vestido foram unidos com bordados dourados. Incrível !!!!!!!!
E qual a diferença entre reciclagem e upcycling ???

Reciclagem é um termo muito mais conhecido, pelo menos aqui no Brasil, do que upcycling que é um termo relativamente novo, tendo sido citado há mais ou menos 20 anos e só mais recentemente tem sido difundido.

A reciclagem então é o processo de minimizar desperdício e transformar materiais ou produtos de potencial utilidade. Assim, por exemplo, um jornal reciclado pode virar uma folha de papel sulfite!!! É papel velho e usado que viraria lixo que foi reciclado virando um papel tipo sulfite. Este processo permite reduzir o consumo de matérias-primas, de utilização de energia e a poluição do ar e da água, porque reduz a necessidade de tratamento convencional de lixo e a emissão de gases do efeito estufa. Porém, a reciclagem apesar de ser bem menos nociva do que, por exemplo, a incineração de lixo, ainda utiliza alguns componentes químicos no processo.
No Upcycling não !!! A utilização de química não acontece!!! No upcycling é feito o reuso, a ressignificação de algo que aparentemente não tem mais valor. É a reutilização de um material que se tornaria lixo, porém ainda não tinha sido usado como o que é reciclado. Então, suas propriedades originais são mantidas, sem a necessidade de intervenções químicas, e o que hoje impacta bastante, nesse processo: o custo é mais baixo do que o da reciclagem. Para exemplificar, posso citar que uma sobra de retalhos de uma confecção pode se transformar em uma linda saia.

Dizem que o upcycling é mais ecológico que a reciclagem já que não é necessário gastar recursos como água ou energia. Consiste em pegar algo que seria descartado e reaproveitar o material, em suas propriedades naturais, fazendo algo novo.

Um lindo exemplo de reaproveitamento é a loja brasileira de sapatos e acessórios ecológicos e veganos, chamada Insecta Shoes. No site leio e me encanto:

“Transformamos em sapatos peças de roupas usadas, além de garrafas de plástico recicladas. Os mais diversos tecidos e estampas daqueles modelitos abandonados viram botas, oxfords, sandálias e slippers veganos, sem nenhum uso de matéria-prima de origem animal. Aumentamos a vida útil do que já existe pelo mundo.”

Seja reciclagem, upcycling ou reaproveitamento, tudo é válido, e nessa época do ano aqui no Brasil, não pude deixar de fazer um link de tudo isso com a nossa maior festa, o Carnaval.
Pesquisando, encontrei um texto de Aydano André Motta, de cerca de um ano atrás que descreve a crise econômica como um divisor de águas dentro das escolas de samba!!! Um exemplo excelente é a substituição de penas naturais, uma vez que uma única pena de faisão chega a custar cerca de 150 reais e cerca de 35 mil penas já chegaram a ser usadas em um desfile de uma única escola de samba.

De acordo com o texto e também em conversa recente com integrantes de uma escola de samba paulista, a questão das penas é algo importante, e garantem que as penas de pavão são utilizadas apenas as que caem naturalmente do animal e outros tipos de pena natural são de criadouros regulamentados.
O texto ressalta também, a grande mágica, e porque não dizer o enorme malabarismo que o carnavalesco teve e tem que fazer para economizar e substituir materiais de uma maneira que a beleza do espetáculo não diminua.

Renato Lage, que até ano passado fazia parte do Salgueiro e neste ano integra a Grande Rio, é considerado um dos melhores carnavalescos da atualidade. Ele se destaca pois é um mestre em reinventar materiais e utilizar objetos considerados pouco nobres (copos plásticos, garrafas pet, etc) em carros alegóricos conseguindo um efeito de riqueza, esplendor e brilho.
Um exemplo ainda mais conhecido, Joãosinho Trinta, no Carnaval de 1974, ao se deparar com um orçamento reduzido utilizou tinta e purpurina, transformando forminhas de doces no pano de fundo das alegorias, conduzindo a escola ao título naquele ano.

Uma frase incrível dita por Renato, merece destaque: “Nós nos acostumamos com orçamentos apertados e aprendemos a improvisar”. “O carnaval é a arte do possível. Damos nosso jeito para realizar o projeto e levar a escola para a avenida”.
O texto termina dizendo que a sustentabilidade ainda está muito longe de participar do Carnaval, porém, mesmo que por motivos econômicos, as escolas foram “obrigadas” a fazer uma reinvenção dos materiais utilizando garrafas-pet, copinhos de café, copinhos de papel que ganham pinturas para brilharem como adereços de alegorias, plástico-bolha, palhas de aço, buchas e rolhas, por exemplo, entram no lugar de paetês, cristais e pedras.

Na minha opinião, os barracões estão sim, apesar de que ainda por razões econômicas, praticando a sustentabilidade ao deixar de comprar adereços e passando a utilizar tanto a reciclagem quanto o upcycling. Acredito que façam isso sem se dar conta de que estão sendo sustentáveis.

E aqui está lançado um desafio, tanto para as escolas de samba quanto para as ongs, apoiadores, pesquisadores e militantes sustentáveis: que tal um Carnaval 2019 com a consciência sustentável? Que tal algumas palestras, aulas e encontros para que os integrantes saibam o que podem fazer e saibam que o que já fazem inconscientemente já é, em termos, sustentável também?

Quem vai encarar? Sabrina ?!
Seria o máximo !!!

Transportando esse pensamento para o mundo da moda, acredito que o que nos mova não seja apenas a crise econômica que nos obrigou a correr atrás de novas tecnologias e materiais que não impactam o meio ambiente. Vejo que no barracão das escolas de samba, o impacto da crise trazendo redução de verba para fantasias e adereços foi determinante para um novo olhar, uma nova busca e escolha de materiais alternativos. A reciclagem e também o upcycling passaram a ser empregados.

A certeza da finitude de matéria prima e o impacto negativo que, durante anos a indústria da moda provocou por sua atividade, foi determinante para a busca de novas tecnologias, materiais e processos que diminuam ou erradiquem o impacto ruim provocado no meio ambiente.

Existem muitas pessoas que dizem que muitas das grandes grifes de moda mundiais, só “entraram” na onda da sustentabilidade pois perceberam que teriam prejuízo moral e financeiro. Há quem diga que se trata pura e simplesmente de uma conscientização global que cada vez mais se encorpa de que devemos e podemos utilizar a sustentabilidade para um bem maior.

Exemplos vindos, diariamente, das consagradas grifes de alta costura são, com certeza inspiradores e nos trazem a esperança de que esse crescimento de consciência se consolida a cada dia que passa.

Seja na intensa pesquisa para a descoberta de novos materiais vindos de descartes de bagaço de frutas usado nas coleções de Ferragamo, seja pelo upcycling como a dupla Viktor & Rolf corajosamente faz, seja pela reciclagem feita pela grife italiana Gucci que vem mostrado uma série de iniciativas eco-friendly com o objectivo de reduzir o impacto sobre o meio ambiente que redesenhou suas embalagens usando apenas papel 100% reciclado, estamos no caminho certo.

Para mim, esse caminho não tem volta, acredito que todas as grifes que assumiram compromissos sustentáveis, estão cumprindo tudo a risca e, melhor ainda, depois que comprovam os benefícios provocados por essas atitudes positivas acabam buscando cada vez mais adequações em sua produção.

Fontes:
www.wikipedia.org
www.nytimes.com
www.pensamentoverde.com.br
www.insectashoes.com
www.fashionlearn.com.br
www.animimoda.com
www.trendr.com.br
www.projetocolabora.com.br
www.stylourbano.com.br
www.mundodasmarcas.blogspot.com.br

Leave a Reply
Your email address will not be published. *