A moda é o espelho de nossos tempos. Seu reflexo é a sustentabilidade.

A moda é o espelho de nossos tempos. Seu reflexo é a sustentabilidade.

Após o desastre do Rana Plaza, em Bangladesh, onde mais de 1.100 de trabalhadores morreram, um alerta foi emitido: de que forma a indústria da moda produz? O mundo percebeu que precisava da mudança e de fato isso aconteceu. Agora conseguimos perceber, ver e sentir sim um movimento que busca fazer uma moda mais sustentável e ética – e dentro de todos os quesitos. Dentro deles, vamos destacar a luta por condições mais dignas para os trabalhadores dentro das fábrica, mas será que na parte da produção alguma coisa realmente mudou?

Apesar dos programas recém-implementados de sustentabilidade e responsabilidade social de marcas “fast fashion”, como a gigante de roupas sueca H & M, que reconhece a Alemanha como seu maior mercado europeu, a indústria parece a mesma que há quatro anos. De acordo com um estudo recente de Sarah Labowitz e Dorothée Baumann-Pauly publicado pelo Centro Stern para Negócios e Direitos Humanos da Universidade de Nova York, 3.425 inspeções foram realizadas desde outubro de 2015 em Bangladesh, por exemplo – mas apenas oito fábricas passaram por elas. Podemos destacar duas razões para poucas fábricas conseguirem os consertos e assim o sucesso, a primeira devido  a necessidade nas atualizações mais essenciais e para assim as tornar mais seguras incluindo melhorias elétricas e mudanças nas instalações já construídas e isso gera um alto custo. A segunda razão, segundo a pesquisa, é que as marcas vêem como responsabilidade dos fornecedores pagar por esses caros reparos de fábrica. 

Atualmente, o Sindicato de Bangladesh,  responsável em representar os milhões de trabalhadores das fábricas de roupas, rejeitaram o salário mensal de US$ 95 por não concordarem com o baixo valor e queriam o pagamento mensal mínimo três vezes o valor oferecido.  Afinal, a indústria de vestuário responde por mais de 80% das exportações do país e emprega cerca de 40 milhões de trabalhadores, a maioria mulheres.

O resultado  da recusa, foram  as manifestações na capital de Bangladesh e mesmo assim, a proposta feita para o pagamento mensal, que deve entrar em vigor a partir de dezembro, representa um aumento de 51% sobre o salário mínimo atual, estabelecido em 2013. O jornal Independent de Bangladesh citou Joly Talukder, um representante do sindicato para os trabalhadores de vestuário, dizendo que o novo salário é “ilógico e injusto”. Por isso não é de se espantar a recusa  pela maioria dos sindicatos mesmo após meses de negociações.

E assim, a luta dos sindicatos segue por anos, buscando por salários mais altos e melhores condições de trabalho,  e continuarão em organizar mais protestos em todo o país, para que suas reivindicações sejam atendidas. para lutar por uma triplicação do salário atual dos trabalhadores.  Lembrando que ele fazem parte dos principais produtores de vestuário do mundo,  só no ano passado Bangladesh embarcou  US$ 30 bilhões em bens de suas 4.500 fábricas para varejistas globais como H&M, Walmart, Gap e Tesco.  Um dado que talvez não cause espanto a todos, mas com uma realidade diferente da nossa( mesmo levando em conta aos nossos diversos problemas sociais, mas o fato de ser  cidadão brasileiro temos o direito a um salário mínimo no Brasil)e essa questão de ter um salário mínimo foi introduzido, pela primeira vez, há cinco anos. depois do desastre na fábrica de roupas Rana Plaza em Dhaka.

Tendências semelhantes de salários baixos, condições perigosas, legislação deficiente, falta de transparência nas linhas de produção e responsabilidade negada pelas marcas não são apenas características da indústria em Bangladesh. Com uma série de fotos de Jost Franko “Cotton Black, Cotton Blue” nos mostra como as falhas da indústria de vestuário são sistemáticas. Em 2015 e 2016, Franko visitou Bangladesh, mas também a Romênia, e sua experiência foi semelhante em todos os países. “Os empregados do setor de vestuário são um dos trabalhadores com salários mais baixos da União Européia. Seus salários costumam ser menores do que nas fábricas da China”, disse ele. Cadeias como Primark, Zara ou H&M não são as únicas a terceirizar sua produção. De acordo com o Wall Street Journal, cerca de 20% de todos os produtos da Prada, a principal marca italiana de luxo, são fabricados na China, e várias linhas da Burberry, Louis Vuitton e outros nomes caros são produzidas no Camboja e Romênia.

O fenômeno das roupas de baixo custo, o conhecido “fast fashion“, tenta passar o discurso de democratização da moda, mas no fundo é um desastre social e ecológico. A superprodução necessária para satisfazer constantemente os consumidores também afeta gravemente dezenas de milhões de pessoas no resto do mundo. Em abril deste ano,  por exemplo, uma fábrica em Karachi, no Paquistão, pegou fogo e após duas semanas, uma explosão em uma fábrica não registrada matou duas pessoas no Camboja, conforme relatou o jornal local Phnom Penh Post.

Por isso precisamos entender: roupas descartáveis são vidas descartáveis. Não estamos presenciando de perto a realidade em que as fábricas operam e realmente não estamos cientes das condições reais das roupas que acabamos de comprar. Um questionamento sobre isso ( das roupas compradas), feita aos alemães em  Berlim, na Kurfürstendamm , tiveram como resposta  geral: “Mas eu achei que já haviam resolvido isso!”

Em parte, sim, foi feito muita coisa para mudar o cenário da moda, mas se comparado as várias promessas feitas depois do Rana Plaza, temos um longo caminho ainda a percorrer. Infelizmente, os números e incidentes não parecem ter um forte impacto nos clientes, porque nem sempre chegam as notícias sobre o que de fato esta sendo feito. Esse é nosso propósito: mostrar e informar o mundo da indústria da moda, como  podemos fazer e que são possíveis (NECESSÁRIAS) as mudanças positivas e também  revelar as suas falhas. E como Livia Firth, fundadora e diretora criativa da Eco Age, em uma pesquisa sobre moda rápida feita pela Business of Fashion ” A moda rápida nunca será sustentável, pois, seu modelo de negócios é baseado na produção de grandes volumes, incrivelmente rápido, muito barato, para que possamos comprar mais roupas”e Amy Hall, diretora de consciência social da Eileen Fisher, acrescentou que “muito pouco mudou substancialmente para os trabalhadores da fábrica. Os salários ainda são muitos baixos, as horas são muito altas e a transparência geral é insuportavelmente sombria”. A moda desempenhou um papel fundamental na identidade social, cultural e biológica de nossa civilização. As vidas que a indústria emprega tornaram-se tão descartáveis ​​quanto as coleções que produz. Como diz o ditado popular, a moda é de fato o espelho de nossos tempos, mas acreditamos que o seu reflexo é a sustentabilidade.

*Foto retirada da internet

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