Uma indústria principalmente de (e por) mulheres

Uma indústria principalmente de (e por) mulheres

A indústria da moda tem presenciado um ano de revelações, nem sempre positivas, como modelos prestando queixas de abuso sexual contra fotógrafos conhecidos como Mario Testino, Bruce Weber e Patrick Demarchelier. Também foram acusados grandes executivos, muitos que acabaram desligados de seus cargos em empresas como Lululemon, Stuart Weitzman e Nike, estampando problemas crônicos nesse setor. Podem ir desde a preocupação com a sustentabilidade, como à representação das mulheres e por último, não menos importante, à falta de ética em suas cadeias de suprimentos. Embora acompanhamos o progresso na indústria da moda, principalmente na abertura para um espectro mais amplo de raças, formas e gêneros, em outras áreas, tais como a sustentabilidade, paridade de gênero e ética, ainda temos muito a fazer.

Assim, várias revistas como Elle, Marie Clarie e BoF(Business of Fashion) dedicaram suas edições em discutir o assunto Sustentabilidade na Moda, afinal “O que há para celebrar numa época em que o mundo em geral parece tão sombrio e quando a moda ainda tem tantos problemas profundos a resolver?”

Uma resposta foi a edição de setembro da BoF que decidiu responder com otimismo e focando suas lentes nas pessoas que estão lidando com essas questões de frente: os pioneiros, inovadores e ativistas que compõem a nova vanguarda da moda. Mostrando os executivos que carregam os valores em seus modelos de negócios; desenhistas que quebram fronteiras, sendo um exemplo para os outros seguirem; ativistas que lutam pela justiça social; jornalistas responsabilizando o setor por seus erros; biólogos inventando novos materiais sustentáveis; e criativos abraçando a inclusão genuína.

No começo de sua edição temos a entrevista com François-Henri Pinault, presidente e executivo-chefe da Kering, empresa francesa de produtos de luxo, que faz sucesso na imprensa financeira pelo crescimento espetacular de suas marcas de grande sucesso Gucci, Saint Laurent e Balenciaga. Mas o que o diferencia é a sua crença de que o forte desempenho dos negócios deve ser acompanhado – até mesmo habilitado – por um foco igualmente forte em fazer a coisa certa; fomentar uma cultura de capacitação que permita aos principais líderes empresariais e criativos fazerem o melhor trabalho possível, criando um ambiente de trabalho equitativo para as mulheres e dando primazia à sustentabilidade. Sua abordagem para unir lucro e propósito é um modelo do qual todos podemos aprender.

Outra estrela a estampar a capa da edição é Kalpona Akter que começou a trabalhar em uma fábrica de roupas em Bangladesh aos 12 anos de idade e se tornou ativista de trabalhadores de vestuário do país. E depois do trágico desastre do Rana Plaza em 2013 (quando 1.134 pessoas foram mortas no colapso de um incêndio. edifício comercial de oito andares após anos de negligência estrutural no pior desastre da história da indústria do vestuário) entender a questão que ela está avançando é de importância crítica para quem trabalha com moda – ou para quem compra roupas.  Segundo diz Kalpona “embora as condições nas fábricas tenham melhorado, a segurança ainda é um problema. Os trabalhadores continuam mal pagos pelo seu trabalho. Um trabalhador de vestuário de Bangladesh ganha cerca de 5.300 taka ou US $ 62 por mês – não o suficiente, para cobrir os custos mensais de vida de uma pessoa, muito menos a família que eles precisam para sustentar. Além disso, 80% dos trabalhadores de vestuário são mulheres, e muitas delas são vítimas de violência baseada no gênero dos proprietários e da administração dos produtores das fábricas.”

O que remete ao dado compartilhado por Sr. Pinault  durante a entrevista: uma em cada três mulheres será vítima de violência em suas vidas. Ele diz que isso é verdade em todos os países desenvolvidos e em desenvolvimento, e em todas as classes sociais.  E fica mais preocupante essa estatística, considerando que uma indústria que emprega principalmente mulheres, é consumida principalmente por mulheres, e que usa as mulheres como seus rostos em campanhas.

Pensando nisso, que a edição e a lista # BoF500 deste ano, é sobre pessoas com as quais podemos aprender, que estão liderando o caminho, estão moldando a indústria que queremos ser. Trará 96 novos nomes à sua coleção global de executivos, empresários, editores e criativos mais inspiradores do que nunca. Neste momento, não há nada mais importante do que as histórias de mulheres como Kalpona e inúmeras outras que enfrentaram abuso e discriminação em toda a indústria da moda, desde chão de fábrica até fotos de moda. Precisamos continuar a ouvir suas histórias, amplificá-las e não deixar que esse momento importante nos passe sem a reflexão, a reconciliação e os reparos que precisamos para avançar mais e melhor.

*Foto retirada da internet

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